, Fórum PAS - Prática em Atenção à Saúde 2017

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Catadores de reciclado do Vila Sabiá: suas maiores dificuldades
Tatchia Puertas Garcia Poles, Leonardo Ryo Sonohara, Lucas Scomparim Rodrigues de Brito, Lucas Blasek Auad de Faria, Luis Guilherme Spalvieri Lopes, Luiza Kohmann Salvoni, Maria Julia Gomes de Moraes Reis, Maria Julia Varges do Vale, Mariana Dalsoglio, Marcelo Cintra Amadeu, Marco Tulio de Camargo

Última alteração: 2017-12-07

Resumo


Introdução: Na sociedade atual nota-se uma grande produção de lixo, e uma parcela considerável da população sobrevive da renda obtida pela sua coleta. Segundo um estudo de 2002 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), havia 200 mil catadores que trabalhavam em lixões por todo o país. Essas pessoas, devido a sua baixa renda, submetem-se a um grau de insalubridade máxima no trabalho, segundo a classificação estabelecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os catadores inseridos nessas condições precárias de trabalho relatam contrair doenças infecciosas, problemas osteoarticulares e piora de doenças crônicas. Assim como também estão submetidos a situações de risco de lesão. Nesse ano (2017), ocorreu um surto de febre amarela, uma doença infecciosa, causada por vírus e transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, no município de Sorocaba. Isso se deve ao descarte incorreto de lixo, pois agrava a proliferação do vetor que representa maior risco de contágio à toda a população, sobretudo aos catadores, que entram em contato direto com o lixo. Como no bairro Vila Sabiá se encontram muitos catadores de reciclado, surgiu a ideia de desenvolver um projeto de instrução sobre o descarte correto de lixo, visando reduzir a ameaça de contágio por essa doença e de outras infecções às quais eles estão submetidos e reduzir o risco de ferimentos laborais. A principal reclamação relatada pelos catadores desse bairro é em relação às lesões adquiridas durante a coleta de lixo, que se dá, sobretudo, pela falta do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI´s) e pelo descarte inadequado do lixo. Além disso, percebe-se que muitos declaram ficar doentes com frequência e isso, provavelmente, é consequência da coleta desprotegida. Somado a esse problema relacionado à saúde, nesse bairro, assim como no restante do Brasil, nota-se um desamparo social dos catadores de lixo, de forma que sua própria comunidade não os auxiliam, além de não valorizarem trabalho realizado. Apesar disso, os catadores da Vila Sabiá sentem-se realizados, pois possuem grande autonomia para sustentar a família. Percebe-se, portanto, que esses profissionais necessitam de auxílio no exercício das suas atividades, bem como de instrução para o melhor cuidado da própria saúde e da sociedade quanto à melhor forma de colaborar com esses catadores. Nesse sentido, este projeto visa especificar as maiores dificuldades enfrentadas pelos catadores de material reciclável da Vila Sabiá e encontrar soluções para os problemas apresentados por estes indivíduos, a fim de garantir principalmente sua segurança no dia-a-dia. Tem também como objetivo principal relatar a história de vida de um dos catadores desse bairro, com finalidade de apresentar a realidade da coleta de lixo. Metodologia: O cenário de estudo foi a área de abrangência da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Sabiá e o público alvo foram os catadores dessa região e os usuários da UBS. O desenvolvimento do projeto, bem como sua posterior interpretação apresenta teor quantitativo e qualitativo. Em um primeiro momento, o caráter quantitativo deve-se à interpretação das informações obtidas com o questionário, realizado por estudantes do curso de graduação em Medicina da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Sorocaba nos dias 12 e 26 de setembro de 2017, aplicado em 12 catadores do cenário de estudo, de modo a compor à caracterização socioeconômica deles com questões que versavam sobre as principais dificuldades encontradas pelos catadores de lixo. Esperava-se que eles se caracterizassem por serem majoritariamente indivíduos do sexo masculino e da faixa etária de 30 a 40 anos – visto que a coleta exige muita força física – com baixo grau de escolaridade. Além disso, acreditava-se que o trabalho fosse temporário e secundário com uma baixa renda mensal média. Presumia-se a falta de auxílio da comunidade em relação ao descarte adequado do lixo; a coleta com maior frequência de garrafas PET e latas de alumínio e que o material mais rentável fosse o alumínio. Supunha-se, também, a não utilização de EPI’s e, consequentemente, o relato, por todos os catadores, de contração de doenças e ocorrência de acidentes laborais; e a dificuldade do transporte do material coletado, como sendo o maior problema dos catadores. Já o traço qualitativo do projeto, dá-se por causa de uma entrevista em vídeo com Vera Lucia Pedro de Goes, uma das catadoras da região; para oficializar a sua participação, foi assinado um termo de livre consentimento de utilização de imagem. Nessa entrevista, ela relatou sua história de vida e a relação dela com trabalho e  com a comunidade do Vila Sabiá. A Terceira parte do projeto foi a distribuição de panfletos e a exposição do banner com caráter informativo à população. Espera-se que com isso ocorra a conscientização da forma correta de descartar o lixo reciclável para facilitar a coleta e reduzir a incidência de acidentes e doenças. Os panfletos serão entregues durante visitas domiciliares e consultas, enquanto o banner será exposto na recepção da UBS contendo informações sobre a reciclagem e alguns dos projetos sociais oferecidos pela Unidade. Resultados: A partir dos resultados obtidos no levantamento de dados do questionário socioeconômico aplicado, concluiu-se que a amostragem desse projeto corresponde a mulheres com 40 a 60 anos. Os catadores possuem baixa escolaridade, a qual dificulta em conseguirem empregos formais, assim, os catadores são marginalizados. O tempo exercendo a atividade como catador de lixo reciclável tende a ser extenso. Então, pode-se concluir que a coleta representa um trabalho fixo, e não temporário. O material mais coletado é a lata de alumínio. Dentre os materiais coletados, os mais rentáveis são fio de cobre, aço e alumínio grosso, enquanto os menos rentáveis são papelão e garrafa PET. Quando questionados sobre dificuldades no trabalho, os catadores relataram a existência de inúmeras delas. A principal queixa foi a falta de cooperação por parte da população local, que não separa o lixo reciclável do orgânico, tornando a coleta mais trabalhosa e demorada. A segunda reclamação mais frequente foi a dificuldade no transporte, associando essa adversidade às dores frequentes pelo corpo todo. Quase metade (41,6%) dos catadores recebe, mensalmente, de R$50 a R$100 e apenas um recebe mais de R$800. Portanto, a renda obtida com a coleta e venda de recicláveis tende a ser baixa. Dessa forma, evidencia-se as dificuldades financeiras enfrentadas por eles, uma vez que essa renda é, na maioria dos casos, muito inferior ao valor atual (2017) do salário mínimo (R$937,00). Com relação aos EPI’s, poucos disseram usá-los. Juntamente a isso, sete confirmaram já ter sofrido algum acidente, enquanto coletavam e apenas dois alegaram ter adquirido alguma doença oriunda do trabalho. Esses dados são incoerentes, na medida em que a intensa exposição a agentes contagiosos e a ausência de EPI’s durante a coleta representam grande risco de contaminação; portanto o número de casos relatados de doenças relacionadas à coleta deveria ser maior do que o obtido. Entretanto, se questionados sobre casos de adoecimentos ao longo do tempo em que realizam a coleta, a maioria respondeu positivamente. É muito provável que essas morbidades relatadas estejam relacionadas ao trabalho, porém, como são incipientes, devido ao baixo grau de instrução, os catadores são incapazes de estabelecer essa associação, o que explicaria as informações paradoxais. Foi possível observar também, que a coleta de lixos recicláveis se trata de um trabalho individual. Entretanto, não se identificou conflitos entre os catadores, devido à disputa por recicláveis. Ademais, não foi encontrado qualquer relação entre a maioria dos catadores e cooperativas de materiais recicláveis. Isso causa insegurança nos catadores, pois ao vender o material coletado, eles não têm certeza do valor que será recebido pela venda daquela quantidade de lixo. Conclusão: Em seu desfecho, alcançaram-se os objetivos prévios estipulados, que diziam respeito à rotina de vida dos catadores, problemas elencados na coleta do material e educação da população no descarte de lixo doméstico. Foram citadas muitas queixas, porém se destacou a dificuldade de manuseio do material reciclável, uma vez que, normalmente, ele está misturado ao lixo orgânico. Com os resultados obtidos nesse projeto, espera-se que os dados sejam de extrema validez para serem interpretados e ampliados em nível municipal pelas esferas de poder, já que essa realidade de dificuldades enfrentadas é comum na região. A abordagem com esmero por parte do setor político pode conferir aspectos legais de trabalho e de saúde aos trabalhadores. E além de visar a garantia da qualidade de vida do cidadão; a coleta organizada, regular e segura tem como consequência a preservação dos ecossistemas, o que ratifica ainda mais a importância dos dados obtidos por essa pesquisa.


Palavras-chave


catadores; reciclagem; equipamentos de proteção individual