Última alteração: 2017-12-07
Resumo
Introdução A violência contra a mulher, ou violência de gênero, acontece em todas as idades, classes sociais, etnias, religiões ou opções sexuais, podendo ocorrer em diversos âmbitos. A violência doméstica contra a mulher consiste em um dos principais indicadores da violência de gênero. A violência caracteriza-se como uma questão social grave e delicada, presente em países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Pode ser física, psicológica, sexual, urbana, institucional, intrafamiliar, de trânsito, entre outros. Ela, muitas vezes, se mostra de forma sutil, ou seja, o agressor é cuidadoso para dominar o estado emocional do agredido. Um terço das mulheres admite já ter sido vítima, em algum momento de sua vida, de alguma forma de violência física. Contamos, atualmente, com uma legislação importante acerca da proteção e dos direitos das mulheres vítimas de violência, como a Lei Maria da Penha, com o aumento no rigor das punições das agressões contra a mulher no âmbito doméstico ou familiar. A abordagem da violência de gênero nos serviços de saúde demanda práticas congruentes com essa perspectiva, em que o profissional se posiciona como facilitador do processo terapêutico, construindo estratégias com as usuárias que contemplem e respeitem seu contexto social e suas singularidades. Para isso, é necessário se aproximar dessas realidades e dar visibilidade aos conflitos que estão subentendidos nas queixas. A OMS, há tempos, vem proclamando a necessidade de preparar os profissionais de saúde para o enfrentamento da violência contra a mulher, pois os dados comprovam que a questão está sendo subnotificada, ocultada ou não documentada. Assim, quando a mulher procura o setor de saúde, essa busca pode ser considerada um sinal de alerta que precisa ser acolhido, tendo em vista as dificuldades que as mesmas em situação de violência têm em procurar ajuda. Objetivos Objetivo geral O objetivo geral desta intervenção é conscientizar as moradoras do bairro de Aparecidinha, em Sorocaba – SP, sobre o suporte fornecido pela ONG CIM Mulher e da UBS Aparecidinha às mulheres vítimas de violência doméstica. Objetivos específicos: I.Informar os métodos de denúncia de violência doméstica; II.Estimular busca por auxílio e III.Conscientizar as moradoras do bairro sobre possíveis consequências da violência, para a vítima e para o agressor. Metodologia Este projeto de intervenção foi realizado em sete etapas. No dia 19/06/2017 foi realizada uma reunião com a coordenação do CIM. Explicitaram-se os objetivos com o trabalho e discutiu-se o impacto dela em Aparecidinha e a maneira como seria abordado. Nos meses de Setembro e Outubro foram distribuídos panfletos criados pelos alunos na UBS e nas Visitas Domiciliares para divulgação do tema e da data da intervenção. Escolha da data de acordo com a programação da UBS (Semana do Outubro Rosa). No dia, primeiramente foi distribuído um questionário a fim de analisar o conhecimento das mulheres a respeito do tema. Secundariamente, foi realizada apresentação, com uma palestra realizada pelos sobre temas de Violência à mulher, órgãos disponíveis a serem procurados pela mulher e Lei Maria da Penha; explicação do trabalho realizado no CIM Mulher pela psicóloga e incentivo à procura; roda de conversa para dúvidas e orientações; finalmente, questionário final a fim de analisar o impacto da intervenção. Após a realização do projeto, foram montadas as estatísticas do antes e depois da conclusão do projeto. A médio e longo prazo, recebimento de retorno dos encaminhamentos do CIM Mulher afim de avaliar o valor prático da intervenção na vida das moradoras do bairro. Resultados Com base nas questões de 1 a 6 do questionário inicial aplicado em 24 participantes da intervenção, foram coletadas as informações referentes ao conhecimento prévio sobre violência de gênero. 75% das participantes afirmaram conhecer o CIM, 87,5% afirmaram conhecer alguma mulher que já sofreu violência, e que destas, 57,15 procuraram ajuda. Ainda, 81,25% das participantes afirmaram conhecer os órgãos que podem procurar em caso de violência contra a mulher, 93,75 afirmaram conhecer a Lei Maria da Penha e 68,75 afirmaram conhecer os diferentes tipos de violência. Com base na questão 7 do questionário inicial, foram coletadas as informações sobre o risco/violência exposta, dessas, 5 mulheres (12%) tiveram resposta positiva em pelo menos uma das alternativas, sendo as opções 1(Ele controla o tipo de roupa que você usa?) e 2 (Ele tenta lhe afastar de amigos, parentes e/ou vizinhos?) presentes em 50 e 60% das mulheres que afirmaram, respectivamente. Com base na questão 1 do questionário final, foram coletadas informações sobre história de violência de gênero entre as participantes. 62,5% afirmaram ter sofrido algum tipo de violência, destas 80% afirmaram ter sofrido violência psicológica, 40% violência sexual, 40% violência física, 50% violência moral e 50% violência patrimonial. Ainda, 20% afirmou que precisa de ajuda no momento. Das mulheres que realizaram denúncia, 10% afirmaram ter procurado o CEREM, 60% a Delegacia da Mulher, 40% a Polícia Militar e 10% outros órgãos. Com base nas questões 2, 3,4 e 5 do questionário final, foram coletadas informações acerca do que foi passado durante a intervenção e opinião pessoal sobre os motivos das mulheres que sofrem violência não procurarem ajuda. 93,75 afirmaram saber quais órgãos procurar ajuda em caso de violência, 100% afirmou entender para que serve a Lei Maria da Penha e 93,75 afirmaram entender como funciona o ciclo de violência. Para as mulheres presentes, os motivos pelos quais as mulheres que sofrem violência não procuram ajuda são: Medo de romper o relacionamento (62,5%), vergonha de procurar ajuda e ser criticada (37,5%), esperança de que o parceiro mude o comportamento (68,75%), por sentir-se sozinha e não conta com pessoas que a apoiem (50%), medo de não ser aceita na sociedade como mulher sem marido (37,5), dependência econômica dos parceiros para sustento da família (75%), nem todas estão preparadas para viver um processo de separação (18,75%), por causa das relações desiguais de gênero (6,25%). Discussão/Conclusões A realização do projeto “Violência contra a mulher: uma luta de todos” é considerado um grave problema social e de saúde pública. O principal objetivo deste projeto foi propiciar o surgimento de uma reflexão acerca da violência contra a mulher, em todas as suas formas e ambientes, visou-se apontar e instruir às mulheres e aos funcionários da UBS, sobre as medidas e órgãos públicos que podem combater cada tipo de violência. Através desse projeto foi possível avaliar dados acerca do conhecimento prévio das mulheres de Aparecidinha e dos números de mulheres que sofreram violência na região. Como demonstrado na Tabela 1, 87,5% das mulheres entrevistadas conhecem alguma mulher que já sofreu violência, mas apenas 57,15% foram em busca de ajuda, porém, nenhuma delas chegou a recorrer ao CIM Mulher. Um dos motivos dessa baixa procura de órgãos de violência à mulher é o fato de muitas acreditarem que aumentam o risco às suas vidas, como evidenciado na Tabela 4, em que 62,5% têm medo de romper o relacionamento. Uma das hipóteses da razão da pouca procura por assistência incluem a pouca quantidade de delegacias da mulher, não estando presentes em todas as cidades do país. Das mulheres entrevistadas em Aparecidinha, 37,5% delas alegou vergonha de procurar ajuda e ser criticada como o principal motivo para não realizar a denúncia. Isso pode ser explicado por situações como a cultura do estupro ainda muito propagada na sociedade atual. Conseguimos aumentar o conhecimento das mulheres sobre os órgãos que podem procurar ajuda de 81,25% do questionário inicial para 93,75% no final. Tendo em vista que nenhumas das mulheres tinham conhecimento sobre o CIM, CRAS e Central de atendimento à mulher, refletindo uma pobre disseminação desses órgãos perante a sociedade. A inclusão do CIM Mulher no projeto promoveu uma maior acurácia à intervenção e a presença da psicóloga dessa instituição criou um ambiente de segurança, em que foi possibilitado o compartilhamento de experiências, uma vez que pode ajudar a promover melhorias das condições psicossociais e de saúde da região abrangida pela unidade básica.