Última alteração: 2017-12-07
Resumo
Introdução: Considera-se população em situação de rua (PSR) o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória. Viver na rua expõe as pessoas a diversos fatores de risco que ampliam sua vulnerabilidade como: violências, preconceito, invisibilidade social, dificuldade de acesso a políticas públicas, alimentação incerta e baixa disponibilidade de água potável, privação de sono e afeto e a dificuldade de adesão a tratamento de saúde. Sem uma moradia segura e adequada, essas pessoas não conseguem manter hábitos saudáveis e têm a saúde exposta aos mais diversos agravos. Entre as doenças infectocontagiosas mais comuns que atingem os desabrigados estão a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), a tuberculose pulmonar, as infecções por vírus da hepatite B e C e as cutâneas. A vacinação caracteriza-se por uma ação simples e de grande eficácia na prevenção de doenças imunopreveníveis sendo uma das principais ações de promoção da saúde inserida no âmbito da atenção básica. O município de Sorocaba/SP conta em sua estrutura com um centro de referência em assistência social voltada à atenção a população em situação de rua. Conhecido como Centro POP, o local é um serviço especializado no atendimento de pessoas em situação de rua, assistência psicossocial, atividades de convivência e busca da promoção do resgate ou reconstrução de vínculos familiares. Contudo, a procura por serviços de saúde depende da iniciativa do próprio cidadão em situação de rua que não recorre aos serviços por desconhecer o que é ofertado e/ou por vergonha de sua situação social. Não parece haver uma rede efetiva e contínua de organização de políticas públicas de saúde e de trabalho para atender as necessidades de saúde das pessoas em situação de rua. O presente estudo justifica-se na necessidade de possibilitar a informação e conscientizar indivíduos em situação de rua das ações de promoção da saúde com imunização preconizada no calendário vacinal do adulto, atentando para que sejam reconhecidas suas vulnerabilidades. Objetivos: O presente estudo tem como objetivo promover conhecimento sobre vacinação à população em situação de rua que frequenta o Centro POP Sorocaba, a fim de estimular a procura ao Centro de Saúde Escola ou outra Unidade Básica de Saúde para aplicação das vacinas preconizadas. Assim como, verificar a existência da carteira de vacinação dessa população e traçar seu perfil vacinal. Orientar/discutir sobre as doenças preveníveis pela vacinação. Iniciar e/ou completar o esquema de vacinação, conforme preconizado para as faixas etárias e situações especiais, e sensibilizar quanto aos cuidados com a carteira de vacinação. Metodologia: Foram realizadas ações relacionadas à vacinação, no Centro POP Sorocaba e no CSE, com a participação da população em situação de rua que frequenta o Centro POP Sorocaba. Trata-se de um estudo descritivo. Foi feito um levantamento para averiguar quem possuía carteira de vacinação e os dados que constavam nesta. Também foram feitas, através de metodologia ativa, como rodas de conversa, orientações/conscientizações sobre as doenças imunopreveníveis (difteria, tétano, hepatite B, influenza, sarampo, caxumba e rubéola) e suas respectivas vacinas. Foram realizados 4 encontros, as pessoas eram abordadas em grupo e individualmente. Além das orientações/conscientizações acima citadas, também foi discutido sobre o trabalho da UBS CSE, a importância do acompanhamento médico, do acolhimento, dos testes rápidos. No CSE foram aplicadas as vacinas, conforme necessidade de cada indivíduo. No que se refere a campanha da gripe, houve conscientização dos moradores em situação de rua, que estavam dentro dos grupos de risco, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde, a comparecerem à UBS. E, após a campanha ser estendida à toda população, todos foram orientados. O trabalho foi avaliado através das vacinas aplicadas (número, início e complementação dos esquemas), da participação, de maneira subjetiva, da população participante, através de perguntas abertas sobre doenças e vacinas. Também foi traçado o perfil do público-alvo através de variáveis como idade e sexo. Diante dos dados apresentados foi verificada a necessidade de maiores orientações sobre as atividades da UBS, portanto será realizado um cartaz com orientações, que será colocado no mural do CentroPop e entregue aos funcionários, para que possam orientar, caso necessário. Resultados: Os resultados deste estudo foram obtidos a partir de uma amostra da população, de ambos os sexos, que frequentam ou frequentaram o CentroPOP. Dos indivíduos abordados, 17 deles participaram de forma ativa no momento da intervenção, acompanhando os estudantes à UBS CSE para vacinação e/ou agendamento de consultas. Desses indivíduos, houve maioria de homens (94%). E dentre os homens, foram realizadas intervenções como vacinação e agendamento de consultas para 14 deles. As mulheres representam minoria (6%), sendo o agendamento de consulta a intervenção adotada. A média de idade foi de 37,8 anos, com idade mínima de 21 e máxima de 65 anos. Os indivíduos com idades entre 21 a 30 anos representam 35% da amostra, assim como os indivíduos de 31 a 40 anos. Os outros 30% da amostra correspondem a pessoas entre 41 e 65 anos. No total foram aplicadas 24 vacinas, a intervenção frente à campanha da gripe foi a mais significativa, correspondendo à 37,5% desse total. A vacina de Hepatite B representou 16,6%, a dT 12,5% e a SCR 8,3% dessas aplicações. Dentre as intervenções, foram agendadas 6 consultas médicas. Discussão: Através da metodologia aplicada e dos resultados obtidos, tornou-se evidente que a maior parte do público-alvo não possuía documentação e/ou carteira de vacinação, e quando a tinham, esta não se encontrava atualizada. Apesar dessa constatação, notou-se que uma pequena parcela do grupo analisado possuía o esquema de vacinação completo e atualizado devido ao fato de estes indivíduos serem ex-presidiários. Verificou-se também que alguns participantes do estudo alegavam possuir a carteira de vacinação, mas não tê-la em mãos no momento. O recrutamento de um grupo amostral mais expressivo para o estudo foi prejudicado por diversos fatores que repeliram maior adesão da população que frequenta o estabelecimento. Um dos principais fatores foi a redução do fluxo de usuários em situação de rua no CentroPOP desde o início do ano de 2017, quando o programa da unidade encerrou o fornecimento de refeição no período do almoço para os atendidos. Dessa forma, o próprio estudo não dispôs de uma população maior para ser abordada e isso justifica a pequena amostra obtida. Além disso, o CentroPOP conta com uma grande rotatividade de indivíduos atendidos, o que tornou o seguimento de casos isolados ainda mais prejudicado. Outra queixa frequente por parte dos entrevistados que os desmotivava a participar do estudo era o longo tempo de espera na UBS para serem atendidos. Devido à grande procura durante as diversas Campanhas Vacinais da unidade (e.g. “Campanha de Febre Amarela”), muitos participantes mostravam-se impacientes por terem que aguardar por horas na UBS, além de ficarem preocupados em retornar o quanto antes para seus afazeres. Outra preocupação recorrente era o receio de despenderem de muito tempo aguardando serem atendidos e assim perderem o horário de refeição em outro programa do governo, o “Bom Prato”. Por outro lado, nos casos onde a abordagem foi bem-sucedida houve um impacto positivo. Os usuários do CentroPOP que concordaram em participar do projeto foram orientados sobre os serviços oferecidos, bem como sobre a localização da Unidade Básica, a qual muitos desconheciam. Ademais, foram introduzidas discussões sobre a importância das vacinações e das principais doenças preveníveis pelas mesmas. Nessas abordagens, houve um maior interesse por parte dos indivíduos, tendo em vista que possuíam dúvidas sobre o assunto. Diante do exposto, houve uma série de intervenções benéficas no grupo que se dispôs a participar do projeto. Não só eles tiveram seus esquemas vacinais atualizados como também puderam realizar agendamento de consultas na UBS e sanar dúvidas sobre medicações e cuidados com a saúde. Além disso, muitos receberam orientações sobre testes sorológicos rápidos e encaminhamentos para serviços especializados. Conclusão: O grande avanço dos programas de vacinação em todo o mundo, atingindo altas coberturas com as vacinas tradicionais, vem salvando vidas de milhares de cidadãos de doenças imunopreveníveis. A vacinação contra a influenza foi a mais efetiva e mostrou maior preocupação por parte da população em situação de rua. O levantamento realizado durante as intervenções detectou que o índice de indivíduos que possuíam carteira de vacinação é muito baixo, o que se mostrou como uma dificuldade para dar seguimento ao esquema de vacinação e conseguir traçar o perfil vacinal dessa população. É necessário conscientizar esses indivíduos da importância da vacina, seu efeito e eficácia, para que possam aderir às campanhas, proporcionando, assim, maior expectativa de vida a esta população que está exposta a diversos fatores de risco. Os resultados benéficos encontrados estão associados a discussão ativa sobre doenças e sobre os serviços oferecidos pela UBS Centro de Saúde Escola. Contudo, não pode haver diminuição dos incentivos necessários para ratificar e manter resultados positivos em relação a prevenção, promoção e recuperação de saúde.