, Fórum PAS - Prática em Atenção à Saúde 2017

Tamanho da fonte: 
Importância da informação e do acesso à imunização para população em situação de rua, no município de Sorocaba, São Paulo, Brasil
Rosana Maria Paiva dos Anjos, Fabio Moreira Campos, Fernanda Martinghi Spinola, Fernando Eugênio de Araújo Aguiar, Flávia Gasperini, Gabriel Crenitte Sanches

Última alteração: 2017-12-07

Resumo


Introdução: Considera-se população em situação de rua (PSR) o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória. Viver na rua expõe as pessoas a diversos fatores de risco que ampliam sua vulnerabilidade como: violências, preconceito, invisibilidade social, dificuldade de acesso a políticas públicas, alimentação incerta e baixa disponibilidade de água potável, privação de sono e afeto e a dificuldade de adesão a tratamento de saúde. Sem uma moradia segura e adequada, essas pessoas não conseguem manter hábitos saudáveis e têm a saúde exposta aos mais diversos agravos. Entre as doenças infectocontagiosas mais comuns que atingem os desabrigados estão a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), a tuberculose pulmonar, as infecções por vírus da hepatite B e C e as cutâneas. A vacinação caracteriza-se por uma ação simples e de grande eficácia na prevenção de doenças imunopreveníveis sendo uma das principais ações de promoção da saúde inserida no âmbito da atenção básica. O município de Sorocaba/SP conta em sua estrutura com um centro de referência em assistência social voltada à atenção a população em situação de rua. Conhecido como Centro POP, o local é um serviço especializado no atendimento de pessoas em situação de rua, assistência psicossocial, atividades de convivência e busca da promoção do resgate ou reconstrução de vínculos familiares. Contudo, a procura por serviços de saúde depende da iniciativa do próprio cidadão em situação de rua que não recorre aos serviços por desconhecer o que é ofertado e/ou por vergonha de sua situação social. Não parece haver uma rede efetiva e contínua de organização de políticas públicas de saúde e de trabalho para atender as necessidades de saúde das pessoas em situação de rua. O presente estudo justifica-se na necessidade de possibilitar a informação e conscientizar indivíduos em situação de rua das ações de promoção da saúde com imunização preconizada no calendário vacinal do adulto, atentando para que sejam reconhecidas suas vulnerabilidades. Objetivos: O presente estudo tem como objetivo promover conhecimento sobre vacinação à população em situação de rua que frequenta o Centro POP Sorocaba, a fim de estimular a procura ao Centro de Saúde Escola ou outra Unidade Básica de Saúde para aplicação das vacinas preconizadas. Assim como, verificar a existência da carteira de vacinação dessa população e traçar seu perfil vacinal. Orientar/discutir sobre as doenças preveníveis pela vacinação. Iniciar e/ou completar o esquema de vacinação, conforme preconizado para as faixas etárias e situações especiais, e sensibilizar quanto aos cuidados com a carteira de vacinação. Metodologia: Foram realizadas ações relacionadas à vacinação, no Centro POP Sorocaba e no CSE, com a participação da população em situação de rua que frequenta o Centro POP Sorocaba. Trata-se de um estudo descritivo. Foi feito um levantamento para averiguar quem possuía carteira de vacinação e os dados que constavam nesta. Também foram feitas, através de metodologia ativa, como rodas de conversa, orientações/conscientizações sobre as doenças imunopreveníveis (difteria, tétano, hepatite B, influenza, sarampo, caxumba e rubéola) e suas respectivas vacinas. Foram realizados 4 encontros, as pessoas eram abordadas em grupo e individualmente. Além das orientações/conscientizações acima citadas, também foi discutido sobre o trabalho da UBS CSE, a importância do acompanhamento médico, do acolhimento, dos testes rápidos. No CSE foram aplicadas as vacinas, conforme necessidade de cada indivíduo. No que se refere a campanha da gripe, houve conscientização dos moradores em situação de rua, que estavam dentro dos grupos de risco, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde, a comparecerem à UBS. E, após a campanha ser estendida à toda população, todos foram orientados. O trabalho foi avaliado através das vacinas aplicadas (número, início e complementação dos esquemas), da participação, de maneira subjetiva, da população participante, através de perguntas abertas sobre doenças e vacinas. Também foi traçado o perfil do público-alvo através de variáveis como idade e sexo. Diante dos dados apresentados foi verificada a necessidade de maiores orientações sobre as atividades da UBS, portanto será realizado um cartaz com orientações, que será colocado no mural do CentroPop e entregue aos funcionários, para que possam orientar, caso necessário. Resultados: Os resultados deste estudo foram obtidos a partir de uma amostra da população, de ambos os sexos, que frequentam ou frequentaram o CentroPOP. Dos indivíduos abordados, 17 deles participaram de forma ativa no momento da intervenção, acompanhando os estudantes à UBS CSE para vacinação e/ou agendamento de consultas. Desses indivíduos, houve maioria de homens (94%). E dentre os homens, foram realizadas intervenções como vacinação e agendamento de consultas para 14 deles. As mulheres representam minoria (6%), sendo o agendamento de consulta a intervenção adotada. A média de idade foi de 37,8 anos, com idade mínima de 21 e máxima de 65 anos. Os indivíduos com idades entre 21 a 30 anos representam 35% da amostra, assim como os indivíduos de 31 a 40 anos. Os outros 30% da amostra correspondem a pessoas entre 41 e 65 anos. No total foram aplicadas 24 vacinas, a intervenção frente à campanha da gripe foi a mais significativa, correspondendo à 37,5% desse total. A vacina de Hepatite B representou 16,6%, a dT 12,5% e a SCR 8,3% dessas aplicações. Dentre as intervenções, foram agendadas 6 consultas médicas. Discussão: Através da metodologia aplicada e dos resultados obtidos, tornou-se evidente que a maior parte do público-alvo não possuía documentação e/ou carteira de vacinação, e quando a tinham, esta não se encontrava atualizada. Apesar dessa constatação, notou-se que uma pequena parcela do grupo analisado possuía o esquema de vacinação completo e atualizado devido ao fato de estes indivíduos serem ex-presidiários. Verificou-se também que alguns participantes do estudo alegavam possuir a carteira de vacinação, mas não tê-la em mãos no momento. O recrutamento de um grupo amostral mais expressivo para o estudo foi prejudicado por diversos fatores que repeliram maior adesão da população que frequenta o estabelecimento. Um dos principais fatores foi a redução do fluxo de usuários em situação de rua no CentroPOP desde o início do ano de 2017, quando o programa da unidade encerrou o fornecimento de refeição no período do almoço para os atendidos. Dessa forma, o próprio estudo não dispôs de uma população maior para ser abordada e isso justifica a pequena amostra obtida. Além disso, o CentroPOP conta com uma grande rotatividade de indivíduos atendidos, o que tornou o seguimento de casos isolados ainda mais prejudicado. Outra queixa frequente por parte dos entrevistados que os desmotivava a participar do estudo era o longo tempo de espera na UBS para serem atendidos. Devido à grande procura durante as diversas Campanhas Vacinais da unidade (e.g. “Campanha de Febre Amarela”), muitos participantes mostravam-se impacientes por terem que aguardar por horas na UBS, além de ficarem preocupados em retornar o quanto antes para seus afazeres. Outra preocupação recorrente era o receio de despenderem de muito tempo aguardando serem atendidos e assim perderem o horário de refeição em outro programa do governo, o “Bom Prato”. Por outro lado, nos casos onde a abordagem foi bem-sucedida houve um impacto positivo. Os usuários do CentroPOP que concordaram em participar do projeto foram orientados sobre os serviços oferecidos, bem como sobre a localização da Unidade Básica, a qual muitos desconheciam. Ademais, foram introduzidas discussões sobre a importância das vacinações e das principais doenças preveníveis pelas mesmas. Nessas abordagens, houve um maior interesse por parte dos indivíduos, tendo em vista que possuíam dúvidas sobre o assunto. Diante do exposto, houve uma série de intervenções benéficas no grupo que se dispôs a participar do projeto. Não só eles tiveram seus esquemas vacinais atualizados como também puderam realizar agendamento de consultas na UBS e sanar dúvidas sobre medicações e cuidados com a saúde. Além disso, muitos receberam orientações sobre testes sorológicos rápidos e encaminhamentos para serviços especializados. Conclusão: O grande avanço dos programas de vacinação em todo o mundo, atingindo altas coberturas com as vacinas tradicionais, vem salvando vidas de milhares de cidadãos de doenças imunopreveníveis. A vacinação contra a influenza foi a mais efetiva e mostrou maior preocupação por parte da população em situação de rua. O levantamento realizado durante as intervenções detectou que o índice de indivíduos que possuíam carteira de vacinação é muito baixo, o que se mostrou como uma dificuldade para dar seguimento ao esquema de vacinação e conseguir traçar o perfil vacinal dessa população. É necessário conscientizar esses indivíduos da importância da vacina, seu efeito e eficácia, para que possam aderir às campanhas, proporcionando, assim, maior expectativa de vida a esta população que está exposta a diversos fatores de risco. Os resultados benéficos encontrados estão associados a discussão ativa sobre doenças e sobre os serviços oferecidos pela UBS Centro de Saúde Escola. Contudo, não pode haver diminuição dos incentivos necessários para ratificar e manter resultados positivos em relação a prevenção, promoção e recuperação de saúde.


Palavras-chave


vacinação; promoção de saúde; população em situação de rua

Texto completo: PDF