Última alteração: 2017-12-07
Resumo
Introdução: O diabetes melittus tipo 2 constitui-se como uma patologia crônica com prevalência de 6,2% na população brasileira. Essa doença caracteriza-se pela produção deficitária de um hormônio pancreático, a insulina, ou pela incapacidade celular de utilizá-lo de forma eficiente, acarretando altos níveis glicêmicos na corrente sanguínea. Visto o avanço da enfermidade, em alguns casos, a utilização da insulina exógena faz-se necessária, o que leva o paciente a aderir à prática de autoaplicação da substância com o intuito de promover a melhora da função metabólica, ao mesmo tempo em que mantêm sua independência em relação a parentes e cuidadores. Diante disso, existem algumas problemáticas que afligem esses usuários, tais como a delimitação da região de aplicação, rodízio dos locais de aplicação, reutilização da seringa, conservação da insulina, entre outros. Levando em conta tais fatores, esse projeto propôs-se a realizar encontros quinzenais numa UBS localizada no município de Sorocaba/SP. Estes encontros têm por objetivo auxiliar os pacientes que fazem o uso da insulina a auto aplicarem ou, eventualmente, ensinarem alguém de seu convívio a aplicar o medicamento de maneira correta, evitando quaisquer danos ou efeitos indesejados. O formato de realização da intervenção busca também o compartilhamento de experiências entre pessoas que enfrentam o mesmo desafio, de forma que estas possam encarar sua condição de uma forma nova ao perceberem que existem outros que enfrentam a mesma realidade. Metodologia: O projeto foi realizado na Unidade Básica de Saúde Cerrado, na cidade de Sorocaba, São Paulo. Teve duração de 4 dias (10/10, 24/10, 07/11 e 21/11, no ano de 2017), às terças-feiras, no período da manhã. Foram utilizados locais adequados, com espaços suficientes para sua realização, contando com mesas e cadeiras para o conforto dos participantes e equipe.O desenvolvimento primário do projeto envolveu uma capacitação dos próprios envolvidos em relação ao tema, autoaplicação de insulina, através de artigos científicos, cartilhas sobre insulina e instruções de professores e médicos endocrinologistas.Foram convidados diretamente todos aqueles que estavam na Unidade no momento, além de, indiretamente, através de panfletagem, todos de fora que gostariam de participar. O projeto, em si, foi realizado através de uma roda de conversa, na qual o tema era o Diabetes Mellitus e a insulina, relacionados à forma correta de utilizá-la no combate aos sintomas da doença. Foi utilizado uma linguagem coloquial, para o maior entendimento da população participante, além de um guia, criado pelo grupo, na forma de um questionário verbal para uma melhor condução da conversa, com perguntas objetivas. Ao final da conversa, os participantes foram requisitados para preencher um questionário, visando o levantamento de dados, no qual era pedido informações básicas como o nome, sexo, data de nascimento, endereço, telefone, se possui diabetes e, se afirmativo, há quanto tempo, se faz uso da insulina e, se afirmativo, há quanto tempo e a dose diária aplicada. Além disso, era perguntado o que o indivíduo já sabia antes de vir ao curso, bem como o que havia aprendido com o curso.Por fim, foi realizado a medição da glicemia dos participantes que desejassem, para a maior adesão da população e complementação da conversa, com a utilização de material adequado, como luvas, algodão, álcool, glicosímetro, tiras reagentes para medição de glicose, lancetas e caixa coletora de material perfurocortante. Resultados e Discussão: Durante a realização do projeto na UBS Cerrado, reunimos pacientes diabéticos e parentes de diabéticos a fim de conversar sobre a doença, tirar suas dúvidas a respeito da aplicação de insulina e orientar sobre a importância da prática de exercícios físicos e de uma alimentação adequada. O número de pacientes que freqüentou a roda de conversa foi 21, porém apenas 11 responderam ao questionário. Destes quatro são homens e sete mulheres; a média de idade foi de 53 anos (de 21 a 65); sete eram diabéticos e, destes, 3 faziam uso de insulina.As dúvidas mais correntes foram sobre o modo de armazenamento da insulina e a necessidade de esperar um tempo antes de retirar a seringa na aplicação. Também foi bastante discutida a prevenção do diabetes e as formas não medicamentosas de tratamento, como o cuidado com a alimentação e a prática de exercícios físicos. Percebemos também muitos erros por parte dos pacientes na autoaplicação da insulina, como por exemplo não fazer rodízio no local da aplicação. Após a primeira roda, percebemos que o nosso objetivo com os pacientes não era somente ensinar o uso correto de aplicação de insulina, mas sim ouvir os seus relatos e angústias sobre a doença e entender as implicações subjetivas e emocionais acarretadas pelo uso da insulina. Muitos deles apresentavam rejeição ao tratamento com insulina, pois sentiam-se “punidos” pelos seus maus hábitos de vida e condenados a “furar-se” todos os dias. Dessa forma eles abandonavam ou faziam de forma incorreta o tratamento, medicamentoso ou não, piorando ainda mais o quadro. Fez-se necessário sobretudo a escuta e, depois, uma modesta explicação sobre a fisiopatologia desta enfermidade crônica e como ela evolui mesmo com o tratamento correto. Conclusões: A roda de conversa é um mecanismo importante para o trato com pacientes portadores de doenças crônicas, como o diabetes mellitus tipo II. Ter que conviver com uma condição dessas demanda não só muito preparo técnico de quem a possui, daí a necessidade de prepará-los para a auto-aplicação da medicação quando essa se faz necessária, mas também um suporte psicológico que a discussão em grupo proporciona.O estigma carregado pelos diabéticos normalmente não é levado em consideração, ou mais, é sustentado a todo tempo por aqueles que os cercam e por eles mesmos. Desmistificar a doença torna o paciente mais envolvido e mais apto para o seu tratamento. Foi isso que vimos com a realização desse projeto, pois eles puderam conhecer outras pessoas nas mesmas condições. Dessa forma o ensino da técnica, que foi o objetivo inicial, passou a ser secundário, e veio apenas em complemento num contexto muito mais amplo e subjetivo. Observa-se, por fim, a necessidade de sua continuação por parte da Unidade, para que seja mais eficaz a promoção de saúde em todos o seus níveis, seja na prevenção como na convivência com uma condição crônica.